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Por uma Comissão da Verdade ampla, geral e irrestrita

Como assim o ministro da Defesa, Nelson Jobim, afirma que documentos da época da Ditadura sumiram e isso não se torna um escândalo? Pois bem, é um escândalo o ministro civil que deveria exercer poder sobre os militares – esta é a incumbência do Ministério da Defesa – falar com naturalidade que os documentos sumiram e, por isso, a Comissão da Verdade não é um problema. Ele é ministro da Defesa ou porta-voz dos militares? A resposta eu sei. Todo mundo sabe.

Os documentos não deveriam ter sumido. Esse é o ponto. Se realmente sumiram, pairam questões: quem sumiu? Quando sumiu? Por que sumiu? Quem mandou sumir? Não podemos tratar a impossibilidade de ter acesso a documentos históricos como algo menor. Concordo com a sugestão da jornalista Cynara Menezes (@cynaramenezes) que, em seu twitter, afirmou querer que seja realizada uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a situação. Devemos ir a fundo nessas questões.

Nelson Jobim (foto: Ueslei Marcelino/ Folha Imagem)

Sem contar que a declaração de Jobim é motivo mais do que suficiente para ele ser demitido. Em um país preocupado em saber o que aconteceu com seu passado, um integrante do governo não daria uma declaração dessa e sairia impune. Defesa não significa esconder o passado das Forças Armadas. Conhecer e julgar os militares responsáveis por tortura não é sinônimo de revanchismo, mas de reparação histórica. E é ainda mais grave quando se trata de um ministro de um governo em que a presidenta – comandante-em-chefe das Forças Armadas – diz que não negocia com sigilo de assuntos concernidos na área de Direitos Humanos e foi vítima de tortura.

As Forças Armadas são uma força admirada no Brasil. Diversos militares sérios a integram, mas não dá para permanecer encobrindo deslizes, fortalecendo discursos como o do Clube Militar e de outros, que dizem que a Ditadura foi uma Revolução. Não foi uma revolução. Foi um golpe cívico-militar em que direitos foram reprimidos, pessoas foram perseguidas, torturadas e assassinadas. Diversos pais não tiveram o direito de enterrar os seus filhos. É disso que se trata.

Negar isto, tratar como algo menor, é agir de forma criminosa. Não podemos negociar com arbitrariedades. Que seja instalada uma Comissão da Verdade ampla, geral e irrestrita, sob o risco de algo diferente disso ser um disfarce. Uma Comissão da Verdade capenga não presta pra nada. Uma Comissão da Verdade que não possa aprofundar os crimes da Ditadura (e outros crimes que feriram direitos humanos) é inútil. Um ministro da Defesa que não desempenha o seu papel, há muito tempo, já deveria ter deixado o seu cargo. Não deveria nem ter continuado.

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