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O dilema do Nordeste pós-eleição de Dilma

Ontem, dia 31, a candidata do PT, Dilma Vana Rousseff, foi eleita a primeira presidenta do Brasil. A petista teve 55.752.529 votos, o equivalente a 56,05% dos votos válidos contra 43.711.388 (43,95%) do ex-candidato José Serra (PSDB). Já no dia da eleição, histórica por diversos motivos, pelo fato de ser a primeira mulher, pelo fato de ser o primeiro presidente que consegue fazer seu sucessor após a redemocratização (há controvérsias com relação a Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso), o que teve grande destaque no twitter foi o preconceito de pessoas do sudeste com relação à expressiva votação que Dilma teve no nordeste.

Como a física já nos ensinou, toda ação tem uma reação. E a reação contra o discurso xenofóbico foi em tal intensidade que a tag #orgulhodesernordestino invandiu os Trending Topics mundial. A autora da infeliz declaração de que um nordestino deveria ser morto afogado por dia, talvez assustada com a reação contra a babaquice proferida por ela, se retirou do twitter. Além disto, apareceram reportagens que mostraram ter vindo do Sudeste a maior parte dos votos da petista, anulando o discurso do povo nordestino ter sido o autor exclusivo da façanha.

O que me fez escrever este texto, no entanto, foi algo que eu havia pensado e que vi ser externado pelo jornalista e colega de faculdade André Uzeda (@andreuzeda) em seu twitter sobre o porquê ter que explicar a origem dos votos de Dilma. E, se por um acaso, o Nordeste tivesse conferido a ela um número suficiente de votos que a elegesse, sem necessidade das outras regiões, seria este um resultado menos válido ou importante do que o resultado atual? Óbvio que não.

A história política brasileira mostra que não é incomum presidentes serem eleitos a partir de acordos entre estados. Mesmo em um contexto político-econômico e cultural completamente diferente dos dias de hoje, não era esta a lógica que imperava na política do café-com-leite, quando Minas Gerais e São Paulo se revezavam na presidência da República por serem os estados mais influentes da União na época? Por isto, os presidentes eleitos nesta conjuntura eram menos legítimos? Também acho que não. E, em 2010, não houve acordo entre estados. Dilma venceu no sudeste, norte e nordeste e foi muito bem votada no centro-oeste e sul.

Agora, acho que este discurso xenofóbico não é apenas choro de perdedor. Lembro de um post de João Villaverde (@joaovillaverde), blogueiro e jornalista do Valor Econômico, relatando o posicionamento neste sentido de parte da classe média e da elite paulista, que se sente melhor do que o resto do país. Posicionamento este que, às vezes, extrapola do campo da babaquice e cai em algo mais babaca, violento e doentio, que é a formação de grupos como os skinheads que agridem e matam negros, gays e nordestinos.

Não acho que esta face retrógrada da sociedade brasileira possa ser ignorada, porque ela já está aí mostrando a sua pior face. No entanto, também penso que a maioria dos babaquinhas dos comentários pós-eleição não vá partir para a agressão física, apesar de ter cometido crime pelas frases preconceituosas e que incitam à violência. E considero ser salutar esta discussão toda provocada pela eleição de ontem. É muito melhor do que fingir que estas coisas não existem. Afinal de contas, de história demagógica já basta a que é contada sobre o racismo no Brasil. A origem das duas é a mesma: o preconceito de parte da elite contra representantes das classes menos favorecidas.

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