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“O Carlismo estava adequado àquela situação”

“O Carlismo estava adequado àquela situação”, afirmou o prefeito de Salvador, ACM Neto, em entrevista à Rádio Metrópole, hoje (16). Não consegui nem fazer piada desta vez. Que ele veja o avô vivo, que o tenha como referência (mesmo dizendo ser o novo), vá lá, mas esta reconstrução da história é uma distorção que não deveria ser aceita tão passivamente. O carlismo aqui só se propagou por causa da Ditadura Militar. O prefeito também acha que a Ditadura estava adequada àquela situação?

Aliás, qual é a situação a que se refere o prefeito? “A ameaça comunista”?, argumento utilizado à larga pelos militares e seus apoiadores, “A necessidade de dar início aos negócios da família”?, “Ao fingimento de não existência de violência”?, enquanto o Estado era por si só representante maior da violência contra a população (utilizando para isso métodos escusos como grampos e direcionamento de verbas). O carlismo só estava adequado aos carlistas, apoiadores e familiares.

Este amor irrestrito de Antônio Carlos ao estado nada mais foi que estratégia de construção de imagem, em que ele aparecia como grande defensor da Bahia, enquanto perseguia adversários e deixava grande parte da população na miséria e na ignorância. Ou ainda não figuramos como um dos estados mais desiguais do país no acesso à educação e outros direitos básicos? Retórica e estratégia idênticas a que foram utilizadas pelos militares, que recorriam ao ufanismo e à Ideologia de Segurança Nacional contra um inimigo comum.

ACM Neto (DEM) (foto: Lula Marques/ Folhapress)

ACM Neto (DEM) (foto: Lula Marques/ Folhapress)

Inclusive, a violência é fruto desta desigualdade. Estarrecedor o artigo do prefeito Antônio Imbassahy (PSDB, ex-PFL), no jornal A Tarde de hoje, afirmando que a violência explodiu durante os 13 anos de governo do PT, conferindo-lhes a responsabilidade exclusiva pela situação atual. Não retiro a parcela de responsabilidade destes governos, mas é uma desfaçatez fingir que a desigualdade social aprofundada durante administrações apoiadas por ele não tem uma imensa responsabilidade pelo que assistimos hoje.

Se há uma explosão da violência no Nordeste, em parte, ela se dá pela desigualdade social ainda abissal na região, mesmo com os avanços dos últimos anos na região. A política de segurança pública anterior, que associava o tacape com a não transparência das informações, não era melhor. Enquanto a TV dizia que tudo estava certo na Bahia em 2001, durante o governo Paulo Souto, os tiroteios eram diários, no bairro de Tancredo Neves, em Salvador (morava no bairro na época).

Estas reconstruções da história só são possíveis por termos uma classe média que passou a falar sobre a violência, pelo fato de ser agora vítima dela, após um transbordamento da violência periférica, por haver uma imprensa tão próxima deste discurso e, finalmente, pelo governo Wagner ter seguido a tônica de Lula, conciliando-se com aqueles que sempre estiveram no poder (no nosso caso, com os carlistas), para ter estabilidade política, cedendo em temas importantes, a fim de aumentar o investimento social.

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