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Eleição no século XXI

Nem nos meus piores pesadelos imaginaria que, na terceira eleição presidencial brasileira do século XXI, estaríamos presenciando um retorno à defesa de uma pauta religiosa-ideológica que faria corar a Contra-Reforma da Igreja Católica no século XVI. Nada mais importa, não importa que vivamos em um Estado laico; às favas as vitórias da sociedade civil organizada.

Se as duas candidaturas se rendem às pressões religiosas, participando de encontro com evangélicos e católicos, é inegável que uma delas tem se beneficiado com este clima de intolerância religiosa que está sendo construído neste pleito. O candidato José Serra (PSDB), segundo as pesquisas, teve um grande crescimento ancorado, entre outros aspectos, pelo tema religioso.

As provas disto são irrefutáveis. Serra é apoiado por Silas Malafaia, pastor que tem vídeo na internet criticando Dilma Rousseff (PT). Em Goiás, Serra e Perillo desfilaram com um padre que saiu falando mal do PT. No Rio de Janeiro, foram distribuídos santinhos do tucano com frases bíblicas e, neste mesmo estado, a esposa do candidato do PSDB, Mônica, segundo o Estado de S. Paulo, afirmou que Dilma “mataria criancinhas”.

Serra e Dilma na Band (foto: Abril)

Faz um grande mal ao Brasil qualquer acirramento na questão religiosa, porque somos uma das poucas nações em que não há conflitos étnicos e religiosos. E tanta distorção em temas importantes começa a provocar seus efeitos. Segundo o Datafolha, aumentou a oposição dos brasileiros à descriminalização do aborto, posição defendida por Dilma e pelo PT e distorcida por parte da imprensa comprometida ao adversário da petista.

Uma pessoa pode sim ser contra o aborto, mas a favor da descriminalização. Ou seja, uma pessoa pode entender que o aborto é uma prática ruim, mas não fecha os olhos ao fato de que diversas mulheres, pobres e de diversas religiões, interrompem a gravidez em péssimas condições de atendimento. Há ainda a hipocrisia de parte das classes altas e média que dizem ser contra, mas têm pelo menos um caso de gente conhecida que fez. Diga-se de passagem, em ótimas clínicas particulares.

O aborto é apenas um exemplo do nível abaixo da camada pré-sal atingido nesta campanha eleitoral. Ontem, entrou na pauta a união civil de homossexuais. De novo, com o teor religioso dando as direções. Sem contar as acusações contra Dilma, que já foi acusada de ser lésbica, terrorista, assassina de criancinhas, desconhecida, dúbia, etc. Esperava mais de uma campanha em que os dois são pessoas com larga trajetória política. Errei, por muito.

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