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Censura: Jornalistas miram no que não existe e fecham os olhos pro que não querem ver

De vez em quando, vemos jornalistas gritando contra a censura. Bradam bandeiras dizendo da ameaça de que o Estado totalitário retorne e ameace a nossa profissão. Foi assim com o Conselho Federal de Jornalismo; tem sido assim com a Lei que regulamenta o direito de resposta, mas será que a censura já não está sendo executada exatamente agora, neste momento, e longe do poder do Governo Federal (pra mim, a instância de governo menos censora atualmente)?

Vejamos: existe já agora no País, atuação de grupos empresariais com força de fazer silenciar a imprensa sobre determinados assuntos. São eles os detentores dos recursos que mantém a imprensa através de publicidade. Os empresários têm, inclusive, pedido a cabeça de jornalistas, sendo prontamente atendidos pelos editores e donos de jornal. Neste embate, a corda sempre arrebenta para o lado do mais fraco: o operário da notícia.

A censura, no entanto, não para por aí. Governos de diversos partidos em vários estados utilizam o seu poder (tanto financeiro, quanto político) para, da mesma forma que os grupos empresariais, silenciar órgãos da imprensa sobre determinados assuntos, enviesar coberturas e pedir cabeça de jornalistas. Difícil ver, em um jornal local, forte crítica e fiscalização do Poder público daquele Estado onde o veículo circula.

Nos casos locais, além da censura política e econômica, vigora simpatia dos donos por certos políticos. Funciona assim: “acredito no neoliberalismo, na direita, então apoio PSDB e DEM, que eu acho que é que mais representam estas minhas ideias”; o vice-versa ideológico também acontece.

Querem um exemplo recente da censura? O partido que mais grita contra ela, o PSDB, pressionou e teve a cabeça de um editor da revista História, publicada pela Sociedade de Amigos da Biblioteca Nacional, por ter publicado uma resenha do livro A Privataria Tucana (que tem graves acusações contra o pré-candidato da legenda à Prefeitura de São Paulo). O presidente nacional do partido, Sérgio Guerra, negou que tenha pedido a demissão, mas falou sobre ter sido vítima de uma publicação governamental que queria atingir a honra de seu partido.

Capa da edição 692 da Carta Capital trata do assunto

Ou seja, uma mera resenha em uma revista de circulação restrita gerou a indignação do dirigente tucano. É bom que Guerra explique também a demissão de Heródoto Barbeiro da Cultura; a falta de crítica ao governo tucano em jornais mineiros; certa complacência com o governo do Estado na imprensa paulista; e o recolhimento de edições da revista Carta Capital em Goiás (que me lembrou o recolhimento da revista aqui na Bahia em 2005). O PSDB censor grita contra o possível espelho do Governo Federal petista.

Longe de mim achar que petistas não façam a mesma coisa nos Estados que governam. De vez em quando, aparecem histórias aqui e ali sobre pedidos de corte de cabeça, enviesamento na cobertura por força da publicidade estatal, direcionamento em entrevistas, entre outras ações. Como disse no início deste texto, são ações de governo de diversos partidos em diversos estados. Alguém que queira debater censura de verdade tem que ver isso aí. Se não, as Rainhas de Copas continuarão acionando as guilhotinas.

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