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Avenida Brasil: Go, classe C!

A novela das 21h que estreou ontem na TV Globo é a consolidação da estratégia da emissora para alcançar a classe C. E o autor, João Emanuel Carneiro, tem se especializado em produtos voltados para este público (talvez o que tenha mais fugido do padrão tenha sido a série A Cura) desde sua primeira novela, Da Cor do Pecado. Depois dela, em que a protagonista era Preta, personagem popular, nascida no Maranhão, vieram Cobras e Lagartos (cujo grande destaque foi Lázaro Ramos interpretando outro tipo popular, Foguinho), A Favorita (sua estreia no horário nobre, com sua antagonista dúbia, também de origem pobre) e, agora, Avenida Brasil, com destaque para Divino, um bairro fictício na zona norte carioca.

O nome da novela já indica esta ligação, já que a Avenida Brasil é uma das principais vias do Rio de Janeiro, cortando a zona norte da cidade. Outro elemento desta associação com o popular é a abertura, com Kuduro e cenas que remontam aos bailes Charme, músicas com base rítmica próxima ao funk, bastante comum na década de 80, com tradição naquela região da cidade. Um, em especial, o do Viaduto de Madureira, completou 21 anos de existência no ano passado. Já li pessoas criticando a abertura e aqui um longo parêntese: nada mais coerente para uma novela ambientada na zona norte carioca e com forte vínculo com a classe C do que esta música e a cena das pessoas dançando. Em algumas destas críticas, aflora o preconceito de classe. “O popular é brega”, gritam alguns. Nada mais esperado.

João Emanuel vem mostrando, em suas novelas, que o texto para a classe C não precisa ser ruim, burro, mas sim, que o popular pode ser sinônimo de bons produtos culturais. O que se viu ontem foi um texto ágil, com colaboração de um dos melhores articulistas do Brasil, Antônio Prata, uma direção competente, tocada por Amora Mautner, e uma vinculação clara com o melodrama (característica marcante das nossas matrizes culturais) e atuações inspiradas de Adriana Esteves, no papel da vilã Carminha, Tony Ramos, fazendo o papel do marido traído Genésio e da menina que tem que conviver com a madrasta má, Rita, interpretada pela atriz Mel Maia.

Fina Estampa, novela que antecedeu Avenida Brasil, também apostava no popular, mas é o exemplo do que pode ser o extremo oposto em se tratando do assunto. O texto era preguiçoso, clichê e incoerente. Viu-se no decorrer da narrativa, a protagonista Griselda, interpretada pela brilhante Lília Cabral, se transformar em uma figura caricata, ao ponto da novela terminar com ela correndo atrás da vilã Teresa Cristina, interpretação de Cristiane Torloni, com uma chave de grifo. Apesar dos bons números de audiência, o que se viu foi a trama tendo que se prender ao único personagem, minimamente, interessante: Crô, interpretado por Marcelo Serrado.

Voltando a falar de Avenida Brasil, o autor aposta, novamente, nas contradições de seus personagens. Em entrevistas, João Emanuel Carneiro afirmou que queria que o público torcesse pelas vilanias de Rita, que vai passar a se chamar Nina na fase adulta, quando será interpretada por Débora Falabella. Após ser largada em um lixão, a menina vai buscar vingança contra Carminha. Ele disse que esta vontade veio depois das maldades de Flora, interpretada por Patrícia Pillar, em A Favorita. Aliás, as contradições já estavam ali, tanto em Flora quanto em Donatela (personagem de Cláudia Raia).

Pelo burburinho que gerou na estreia, a nova novela das 21 vai ser um sucesso. Ontem, marcou 38 pontos com picos de 40. Infelizmente, atrás da estreia de Fina Estampa, que alcançou 40 com picos de 44. (Um último adendo: alguém tem que perguntar para o autor por qual razão todas as vilãs de suas novelas são loiras. Em Da Cor do Pecado, Bárbara, loira interpretada por Giovana Antonelli; Cobras e Lagartos, Leona, de Carolina Dieckmann; A Favorita, Patrícia Pillar e; agora, Adriana Esteves).

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