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2014 na Bahia: Tá todo mundo na pista pra negócio – Parte IV

O quadro na oposição também é bastante complicado em torno de um nome que consiga derrotar o candidato petista em 2014. Hoje, os principais nomes no campo da oposição são o vice-presidente de Pessoa Jurídica da Caixa, Geddel Vieira Lima (PMDB), e o deputado federal ACM Neto (DEM).  Mais uma vez, DEM e PMDB estarão em campos opostos.

Parece ser improvável, como foi em 2010, que, reeditada a aliança PT-PMDB a nível nacional, Geddel se coloque na chapa que apoiará a candidatura do adversário de Dilma-Temer, tendo que pagar o ônus de ser governo no âmbito nacional e oposição no Estado. Dificilmente, o PSDB e o DEM deixarão o candidato tucano sem palanque no quarto maior colégio eleitoral do País, apoiando Geddel.

A união da oposição ao PT em 2014 passava por uma união em 2012, na capital baiana, o que, hoje, parece ser algo praticamente descartado. Com a desunião em 2012, com Neto sendo o candidato do DEM e Mário Kertész sendo o candidato do PMDB, resta saber o comportamento dos outros partidos oposicionistas. A noiva cortejada hoje é o PSDB que, a meu ver, vai ficar com o democrata, por causa de uma articulação nacional (fiz esse texto na quarta à noite, portanto, antes da confirmação da aliança entre os dois partidos, concluída na data de hoje). Entretanto, Kertész deve permanecer na disputa, construindo uma alternativa com o PR.

O PR de Borges e o PMDB de Geddel já caminharam juntos em 2010 e não deve ser difícil para eles reeditar a aliança agora, o que pode ser uma garantia de reeditar essa aliança também em 2014. Sobre ACM Neto e o DEM, suponhamos que ele ganhe a prefeitura da capital, largará a administração para ser candidato em 2014? Caso não seja, apoiará Geddel ou o DEM lançará o nome de seu presidente estadual, José Carlos Aleluia, ao Palácio de Ondina? Apoiando Neto hoje, o PSDB pode pleitear ter a candidatura ao governo em 2014 para Imbassahy ou Jutahy?

Esse quadro, para muitos analistas, representa um entrave às aspirações oposicionistas. Creem estes analistas que, desunidos, os oposicionistas perdem este ano e perdem em 2014. É uma antecipação, a meu ver, indevida, pois diversas variáveis devem ser encaradas: 1- o governador não é candidato à reeleição; 2- quem será o candidato do governo; 3- qual será o nível de envolvimento de Lula e Wagner; 4- qual será a aprovação do governo e do governador; 5- como os candidatos de oposição vão se apresentar. Já disse e repito que o que mais atrapalha a oposição hoje é a falta de um projeto, o que favorece amplamente ao governo.

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2014 na Bahia: Tá todo mundo na pista pra negócio – Parte III

Como visto nos posts anteriores, o quadro dentro do PT é complexo em relação a 2014. Entretanto, fora dele, a situação não é menos calma. Na base aliada do governo, existem hoje quatro pré-candidatos para a disputa do Palácio de Ondina. Quatro pré-candidatos que podem se contentar com outras vagas que não sejam a cadeira do governador. São eles Marcelo Nilo (PDT), presidente da Assembleia Legislativa, Lídice da Mata, líder do PSB no Senado, João Henrique (PP), prefeito de Salvador, e Otto Alencar (PSD), vice-governador.

Destes, os que mais articulam para ter uma vaga na chapa majoritária são o presidente da Assembleia, Marcelo Nilo, que já declarou que, se o cavalo passar selado a sua frente (a candidatura ao governo), não vai deixar ele passar, e o prefeito João Henrique, que, no maior estilo “Exterminador do Futuro”, largou o seu “I will be back” e declarou que, em 2014, tentará ser governador da Bahia.

João Henrique (PP) (foto: Divulgação)

Dificilmente, o PT abrirá mão para um dos dois. Se for assim, em 2014, teremos apenas uma vaga ao Senado, que hoje, parece ser do vice-governador Otto Alencar. Este que já se adiantou aos outros partidos governistas e declarou apoio ao candidato do governador Jaques Wagner. Mantendo-se esta configuração, PP, PDT, PSB e PCdoB, os outros maiores partidos da base, teriam que ficar com as suplências do Senado, com a vice-governadoria e com a presidência da Assembleia, que também entra na conta, segundo alguns dos aliados do PT.

Otto Alencar (foto: Mateus Pereira/Secom)

Nilo parece começar a cansar de ser presidente da Casa legislativa estadual, o que não o impede de já ser candidato à reeleição para o biênio 2013-2014. Fato é que ele tem viajado muito ao interior do estado, integrando a comitiva do governador. Aceitaria Marcelo Nilo a vaga de vice-governador na chapa de um petista? Continuará à frente da Assembleia? Brasília, dizem, não é uma de suas prioridades. Toparia integrar a chapa de outro partido da base?

Marcelo Nilo (PDT), presidente da Assembleia

João Henrique e o PP, não tendo espaço nem no Senado, nem ao Governo, se contentarão com a vaga de vice ou com a Presidência da Assembleia ou lançarão a candidatura do prefeito ao Palácio de Ondina? Apesar das pesquisas mostrarem a sua rejeição, vontade é que não falta ao chefe do Executivo soteropolitano. O PP seguirá o exemplo do PMDB, rompendo com o governo, agora que não tem mais um ministério, para alçar voo solo? Duvido, mas não descarto.

Já o caso de Lídice passa por uma decisão nacional do PSB, inclusive, para o que vai querer agora na eleição municipal de Salvador. Se o governador Eduardo Campos entender que deve ter uma candidatura e que a senadora deve ser a candidata, Lídice sai da conta em 2014, abrindo espaço pro PDT. Isso pode ocasionar inclusive a saída de Marcelo Nilo do jogo estadual, já que sobe Nestor Duarte, o que já deixaria, a priori, o partido contemplado com um cargo de alta visibilidade.

Senadora Lídice da Mata (PSB)

Se o PSB decidir não ter candidato em Salvador, Lídice vai se opor ao candidato petista em 2014? Se Eduardo Campos for candidato a presidente, pode ser que sim, mas Campos vai concorrer contra Dilma 77% – Lula? Pra mim, Campos sai pro Senado – único nome capaz de unificar a base em Pernambuco – e só vai ser candidato a presidente em 2018. Assim, Lídice não sendo prefeita, ficará no Senado. A conferir.

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2014 na Bahia: Tá todo mundo na pista pra negócio – Parte II

Rui Costa (foto: Manu Dias/Secom)

Rui Costa, hoje, talvez seja o que mais se articula para ser o candidato do PT à sucessão de Wagner. Ou seja, caso o discurso do governador no final de 2010 fosse o critério final, estaria limado já na saída, mas não é o caso. O que dizem em todos os cantos é que ele tem buscado incansavelmente os prefeitos do interior. Ontem mesmo, no Dia do Trabalhador, lançou slogan (“A Força da Nova Bahia”), interpretado por petistas como antecipação de que quer alçar voos maiores (veja aqui). Um amigo fez a ressalva que o slogan de Rui Costa não é novo. Ele o teria desde a eleição, em 2010, para deputado federal. Feito o registro, não deixa de ser curioso que ainda o utilize agora que é secretário.

O que pesa contra Rui? Além da falta de carisma, o fato de ser desconhecido fora de setores mais ligados em política. Rui estava no seu primeiro mandato como deputado federal, tem um cargo expressivo no governo, a secretaria da Casa Civil, mas que não tem um terço da visibilidade midiática que tem o cargo de presidente da Petrobras.

José Sérgio Gabrielli

Se Wagner pode ser considerado um bom padrinho, imagine o que é ter Lula como padrinho e o fato de ter tido a maior visibilidade nacional de um petista baiano, depois de Wagner, nos últimos sete anos? Estou me referindo àquele que é hoje o principal adversário de Rui Costa dentro do PT, o secretário estadual de Planejamento, José Sérgio Gabrielli.

Gabrielli não tem deixado Rui se movimentar sozinho. Acompanhou o lançamento de pré-candidaturas de alguns petistas no interior do estado e tem assumido eventos com visibilidade nacional, que têm a participação do governo baiano como Rio+20 e o Fórum de Energia de Estados Nordestinos nos Estados Unidos. Fatos noticiados, inclusive, pela imprensa nacional. A chegada de Gabrielli ao governo, inclusive, foi uma das mais criticadas pela oposição. Minha hipótese é que temem o apoio de Lula.

Na visão do vice-presidente de Pessoa Jurídica da Caixa, Geddel Vieira Lima, a sua derrota em 2010 para Wagner foi motivada pelo apoio explícito de Lula ao governador. O secretário estadual de Planejamento é o nome que contaria com o maior empenho de Lula, apoio que ficou marcado com a carta enviada pelo ex-presidente em sua posse, e conta com o apoio de parcela significativa do PT nacional, o que ficou demonstrado com a vinda de José Dirceu e a declaração de apoio do Presidente da Fundação Perseu Abramo, Nilmário Miranda. Além disso, conta com o reforço de esquerdistas históricos que não têm escondido a sua predileção.

Senador Walter Pinheiro (foto: PT)

Por fim, mas não menos importante, está o senador Walter Pinheiro que, junto com Wagner e Gabrielli, são os petistas baianos de maior visibilidade. O problema de Pinheiro hoje é que ele não tem o apoio de sua própria tendência interna, a Democracia Socialista (DS). A DS está rachada em dois pedaços, o de Pinheiro, e o de Afonso-Robinson, muito mais próximos de Wagner. Segundo a revista Isto É, até sua liderança da bancada petista no Senado tem sido contestada pelos colegas. Só o tempo dirá se conseguirá reverter essa tendência.

A disputa no PT centra-se hoje, principalmente, em Rui e Gabrielli. O primeiro tem o perfil parecido com o de Wagner, gosta da articulação política, mas falta a ele a trajetória do governador. Cabe uma ressalva sobre uma possível comparação com Dilma. Apesar de pouca experiência parlamentar, a presidenta tinha larga experiência técnica, Rui está em seu segundo cargo executivo. Já Gabrielli possui maior experiência executiva (nove anos de Petrobras) e um perfil mais técnico do que o de Rui. Se o PT quiser dar uma mexida em seu projeto na Bahia, como Lula fez no caso nacional, será o escolhido.

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2014 na Bahia: Tá todo mundo na pista pra negócio – Parte I

Parece uma precipitação sem medida. Eu sei. Mas o fato é que está todo mundo se movimentando, mesmo que digam oficialmente que 2014 está distante, o fato é que tá todos os políticos já estão na pista, pra negócio. Por conta disso, este Pitacos começa uma série de quatro artigos analisando o cenário. Serão publicados dois hoje (analisando a situação no PT), um na quinta (base aliada) e outro na sexta (na oposição).

Em um almoço com jornalistas no fim de 2010, Wagner, já reeleito, afirmou que apoiaria à sua sucessão aquele que menos tramasse. Tratou de citar o exemplo de Dilma, aquela que, segundo ele, menos tramou para suceder Lula e acabou sendo a candidata e, agora, é presidenta. Pois, se o governador, de fato, utilizasse esse critério hoje, ficaria sem nenhuma opção dentro do seu partido. Todos os pré-candidatos petistas se articulam (não direi que tramam) e muito para ser o candidato da legenda, com a bênção do governador. O PT tem cinco pré-candidatos, dois aparecendo hoje com menor chance: os prefeitos Luiz Caetano, de Camaçari, e Moema Gramacho, de Lauro de Freitas.

Mesmo tendo conseguido excelente visibilidade com a presidência da UPB, o primeiro já é considerado carta fora do baralho, por não conseguir agregar internamente, por algumas declarações mais deslocadas, justo no seu cargo à frente da UPB (o seu espaço de articulação da candidatura) e, agora, com a postura da deputada estadual Luiza Maia, esposa de Caetano, que votou contra o projeto do governo de reajuste dos professores. Uma “afronta” aos interesses do governador, com provável peso em 2014.

O que petistas têm dito é que Wagner não digeriu essa postura e vai dar algum tipo de punição aos governistas infiéis. Com uma base tão dilatada, Wagner não esperava por isso. Apesar da expressiva votação de apoio, teve que ver as defecções de Luiza Maia, do PCdoB (que se absteve de votar) e do deputado Capitão Tadeu, do PSB.

Moema, Nilson Sarte e Caetano (crédito: Valtério Pacheco)

Já Moema Gramacho, apesar de estar em uma situação melhor do que Caetano, ainda pena pelo fato de ter pouca visibilidade no jogo estadual. Vice-presidente da Frente Nacional de Prefeitos, Moema não conseguiu capitalizar isso a favor de sua imagem. Tem buscado um espaço no governo, apesar de, publicamente, negar (a ainda indefinida titularidade da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social).

Articula-se menos que Caetano e como quase tudo na vida tem um lado bom e outro ruim (haja visto, o discurso inicial de Wagner sobre quem trama), dificilmente, será a candidata sem conquistar o apoio dos correligionários. Corre contra ela ainda o fato de ser da mesma tendência interna que Rui Costa – a Reencantar –, que todos sabem é o favorito de Wagner para a sua sucessão.

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Censura: Jornalistas miram no que não existe e fecham os olhos pro que não querem ver

De vez em quando, vemos jornalistas gritando contra a censura. Bradam bandeiras dizendo da ameaça de que o Estado totalitário retorne e ameace a nossa profissão. Foi assim com o Conselho Federal de Jornalismo; tem sido assim com a Lei que regulamenta o direito de resposta, mas será que a censura já não está sendo executada exatamente agora, neste momento, e longe do poder do Governo Federal (pra mim, a instância de governo menos censora atualmente)?

Vejamos: existe já agora no País, atuação de grupos empresariais com força de fazer silenciar a imprensa sobre determinados assuntos. São eles os detentores dos recursos que mantém a imprensa através de publicidade. Os empresários têm, inclusive, pedido a cabeça de jornalistas, sendo prontamente atendidos pelos editores e donos de jornal. Neste embate, a corda sempre arrebenta para o lado do mais fraco: o operário da notícia.

A censura, no entanto, não para por aí. Governos de diversos partidos em vários estados utilizam o seu poder (tanto financeiro, quanto político) para, da mesma forma que os grupos empresariais, silenciar órgãos da imprensa sobre determinados assuntos, enviesar coberturas e pedir cabeça de jornalistas. Difícil ver, em um jornal local, forte crítica e fiscalização do Poder público daquele Estado onde o veículo circula.

Nos casos locais, além da censura política e econômica, vigora simpatia dos donos por certos políticos. Funciona assim: “acredito no neoliberalismo, na direita, então apoio PSDB e DEM, que eu acho que é que mais representam estas minhas ideias”; o vice-versa ideológico também acontece.

Querem um exemplo recente da censura? O partido que mais grita contra ela, o PSDB, pressionou e teve a cabeça de um editor da revista História, publicada pela Sociedade de Amigos da Biblioteca Nacional, por ter publicado uma resenha do livro A Privataria Tucana (que tem graves acusações contra o pré-candidato da legenda à Prefeitura de São Paulo). O presidente nacional do partido, Sérgio Guerra, negou que tenha pedido a demissão, mas falou sobre ter sido vítima de uma publicação governamental que queria atingir a honra de seu partido.

Capa da edição 692 da Carta Capital trata do assunto

Ou seja, uma mera resenha em uma revista de circulação restrita gerou a indignação do dirigente tucano. É bom que Guerra explique também a demissão de Heródoto Barbeiro da Cultura; a falta de crítica ao governo tucano em jornais mineiros; certa complacência com o governo do Estado na imprensa paulista; e o recolhimento de edições da revista Carta Capital em Goiás (que me lembrou o recolhimento da revista aqui na Bahia em 2005). O PSDB censor grita contra o possível espelho do Governo Federal petista.

Longe de mim achar que petistas não façam a mesma coisa nos Estados que governam. De vez em quando, aparecem histórias aqui e ali sobre pedidos de corte de cabeça, enviesamento na cobertura por força da publicidade estatal, direcionamento em entrevistas, entre outras ações. Como disse no início deste texto, são ações de governo de diversos partidos em diversos estados. Alguém que queira debater censura de verdade tem que ver isso aí. Se não, as Rainhas de Copas continuarão acionando as guilhotinas.

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S’il vous plait, Salvador

- Excusez-moi!

- Hã? Tá me xingando?

- Vous ne parlez pas français?

- Rapaz, você tá me tirando!

- Conseillers, obtenir ce mec là, il n’a pas le berceau

O pequeno diálogo reproduzido aí em cima é fictício, mas não me espantaria se, daqui a poucos anos, estejamos vendo-o sendo reproduzido aqui mesmo em Salvador, capital da Bahia. Quem são as pessoas? Um é o baiano que diz amar o povo, mas o quer amestrado, domesticado, reproduzindo regras e procedimentos que considera ser os mais apropriados. O outro é um baiano comum, que, agora, além de tudo tem que conviver com regras de etiqueta legais que querem enfiar goela abaixo a partir dos poderes públicos.

Vimos, recentemente, a deputada Luiza Maia (PT) propor a Lei Antibaixaria. Ali, apesar de todo discurso justo e bem fundamentado da parlamentar sobre a violência contra a mulher ser enaltecida em muitas daquelas letras, tinha por trás o preconceito contra manifestações populares (visto como grotescas, popularescas, etc), mas que são produtos das realidades culturais das pessoas que as cantam, dançam e consomem.

O projeto da petista acaba sendo mais branda do que a dos DJs de Buzu, porque se trata de proibir verba pública para financiamento do que o Estado vai considerar ser agressão a gays, negros e mulheres. Apesar de algumas peculiaridades dos argumentos da deputada terem sido de assustar. Por exemplo, nesta discussão, se Mário Lago estivesse vivo, sua Amélia (também produto de uma época) estaria proibida de ser tocada em festas públicas.

Pra quem não sabe, tramita na Câmara de Salvador um projeto que proíbe a execução de músicas em sons mecânicos pelos chamados DJs de Buzu. Pra mim, é o Estado querendo mudar, na marra, um hábito. Com este argumento, estou defendendo a falta de educação e o barulho nos ônibus? Obviamente, que não. Só quero saber até quando os políticos de cá e de lá vão preferir soluções simples do que ter a coragem de tomar soluções mais complexas.

Por que em vez de educar, dialogar, entender esses traços culturais que estão ao seu redor, nossos políticos e outros tantos, que nem perto de ônibus passam, preferem dizer o que seus usuários devem fazer sob pena de serem multados? Aposto que, se perguntarem, o que incomoda mais: o ônibus sem conservação ou os DJs de Buzu, a resposta vai ser, majoritariamente, a primeira opção. Sem contar, o fato de ser uma lei com toda a cara e jeito de ser inócua. Quem vai fiscalizar essa bagaça?

Sem contar que gente barulhenta tem em todo canto. Aqui, em minha casa, não consigo ver TV na sala direito por causa dos carros de som que passam a todo o momento. Vão proibir os carros de som? Nos ônibus, me incomodam na mesma medida que os DJs de buzu, os pregadores. Vão proibir os pastores de buzu? E as canetas dos camelôs que vêm falhando? Quero já uma lei anti-caneta que falha. Deixo com vocês, Riachão:

P.S: Isso é fruto da união surreal da esquerda marxista clássica, que nunca deu muita importância à cultura, achando-a mero reflexo de uma base econômica, com o elitismo cultural de direita, que vira o nariz para o que é popular. Entretanto, não faz mal reconhecer que educação não vem com punição pecuniária.

P.S²: Como admito as minhas ignorâncias, confesso que o diálogo descrito, no início desse texto, foi construído com a ajuda do Google Translate. Caso alguém tenha uma correção a fazer, agradeço.

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Casseta & Planeta “Vai Fundo”: Sem sono e sem graça

Depois de um ano sabático, reestreou ontem na TV Globo, o Casseta & Planeta, que deixou de ser “Urgente” para ser “Vai Fundo”. No primeiro programa, a promessa de ir fundo no mundo das celebridades. Lógico que a pretensão era fazer esta incursão de uma forma engraçada, mas faltou certa dose de humor. Sem sombra de dúvida, o programa deixou o ritmo sonolento com que estava nos últimos anos, mas ainda há um claro descompasso entre o que eles acham engraçado e o que faz rir de verdade.

Favoreceram o fim da sonolência as gravações na rua, fugindo da dinâmica anterior de quadros repetitivos com personagens sem graça. Hoje, o público era o foco, apesar de apenas uma dessas entradas ter me feito rir. Um quadro Calçada da Fama, em que uma pessoa que passava pelo shopping topou pagar um mico para entrar na “Calçada da Fama”. Uma entrada em quatro, mas tem potencial se melhor explorada. Lembro das gravações na rua no início do “Urgente”, que reproduziam, de fato, a ideia deles de “jornalismo mentira, humorismo verdade”.

As participações de artistas também foram limitadas. Resolveram colocar cinco de uma vez só e, mais uma vez, apenas um teve êxito (e mesmo assim, pela metade). Me refiro ao quadro Mona Lesa, feito pela atriz Miá Mello. O quadro tem uma ligação direta ao quadro que Miá tinha no Legendários, mas a entrevista que ia muito bem, desandou no final, acabando com um Marcelo Serrado, visivelmente, constrangido ao ser perguntado se está pra se casar com um homem. (Até quando essa mistura entre personagem e ator?)

Antes de falar das novas participações, tenho que dizer que as antigas referências ao “Urgente” – quadros gravados com eles fazendo personagens, ou ainda Suzana Vieira utilizando um produto de acabar com paparazzi, no melhor estilo Tabajara – não funcionaram. A resenha irônica das notícias da semana também pode ser muito melhor. A melhor coisa desta volta dos Casseta à TV foi Gustavo Ribeiro imitando a presidenta Dilma Rousseff. Foi ainda melhor do que os vídeos do humorista no Kibeloco.

Nessa volta, o Casseta me fez rir mais do que nos últimos cinco anos somados. Pode ser um bom sinal (ou não). Eles conseguiram alcançar 15 pontos de audiência, dentro da média dos programas exibidos no horário, na sexta-feira. Que consertem os erros e prossigam. O Casseta já foi um excelente programa de humor na TV. Com os novos membros, pode voltar a ser.

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Avenida Brasil: Go, classe C!

A novela das 21h que estreou ontem na TV Globo é a consolidação da estratégia da emissora para alcançar a classe C. E o autor, João Emanuel Carneiro, tem se especializado em produtos voltados para este público (talvez o que tenha mais fugido do padrão tenha sido a série A Cura) desde sua primeira novela, Da Cor do Pecado. Depois dela, em que a protagonista era Preta, personagem popular, nascida no Maranhão, vieram Cobras e Lagartos (cujo grande destaque foi Lázaro Ramos interpretando outro tipo popular, Foguinho), A Favorita (sua estreia no horário nobre, com sua antagonista dúbia, também de origem pobre) e, agora, Avenida Brasil, com destaque para Divino, um bairro fictício na zona norte carioca.

O nome da novela já indica esta ligação, já que a Avenida Brasil é uma das principais vias do Rio de Janeiro, cortando a zona norte da cidade. Outro elemento desta associação com o popular é a abertura, com Kuduro e cenas que remontam aos bailes Charme, músicas com base rítmica próxima ao funk, bastante comum na década de 80, com tradição naquela região da cidade. Um, em especial, o do Viaduto de Madureira, completou 21 anos de existência no ano passado. Já li pessoas criticando a abertura e aqui um longo parêntese: nada mais coerente para uma novela ambientada na zona norte carioca e com forte vínculo com a classe C do que esta música e a cena das pessoas dançando. Em algumas destas críticas, aflora o preconceito de classe. “O popular é brega”, gritam alguns. Nada mais esperado.

João Emanuel vem mostrando, em suas novelas, que o texto para a classe C não precisa ser ruim, burro, mas sim, que o popular pode ser sinônimo de bons produtos culturais. O que se viu ontem foi um texto ágil, com colaboração de um dos melhores articulistas do Brasil, Antônio Prata, uma direção competente, tocada por Amora Mautner, e uma vinculação clara com o melodrama (característica marcante das nossas matrizes culturais) e atuações inspiradas de Adriana Esteves, no papel da vilã Carminha, Tony Ramos, fazendo o papel do marido traído Genésio e da menina que tem que conviver com a madrasta má, Rita, interpretada pela atriz Mel Maia.

Fina Estampa, novela que antecedeu Avenida Brasil, também apostava no popular, mas é o exemplo do que pode ser o extremo oposto em se tratando do assunto. O texto era preguiçoso, clichê e incoerente. Viu-se no decorrer da narrativa, a protagonista Griselda, interpretada pela brilhante Lília Cabral, se transformar em uma figura caricata, ao ponto da novela terminar com ela correndo atrás da vilã Teresa Cristina, interpretação de Cristiane Torloni, com uma chave de grifo. Apesar dos bons números de audiência, o que se viu foi a trama tendo que se prender ao único personagem, minimamente, interessante: Crô, interpretado por Marcelo Serrado.

Voltando a falar de Avenida Brasil, o autor aposta, novamente, nas contradições de seus personagens. Em entrevistas, João Emanuel Carneiro afirmou que queria que o público torcesse pelas vilanias de Rita, que vai passar a se chamar Nina na fase adulta, quando será interpretada por Débora Falabella. Após ser largada em um lixão, a menina vai buscar vingança contra Carminha. Ele disse que esta vontade veio depois das maldades de Flora, interpretada por Patrícia Pillar, em A Favorita. Aliás, as contradições já estavam ali, tanto em Flora quanto em Donatela (personagem de Cláudia Raia).

Pelo burburinho que gerou na estreia, a nova novela das 21 vai ser um sucesso. Ontem, marcou 38 pontos com picos de 40. Infelizmente, atrás da estreia de Fina Estampa, que alcançou 40 com picos de 44. (Um último adendo: alguém tem que perguntar para o autor por qual razão todas as vilãs de suas novelas são loiras. Em Da Cor do Pecado, Bárbara, loira interpretada por Giovana Antonelli; Cobras e Lagartos, Leona, de Carolina Dieckmann; A Favorita, Patrícia Pillar e; agora, Adriana Esteves).

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Falsa Hegemonia do PT

Hegemonia, em Gramsci: dominação através da coerção e coesão. Dominação através de um complexo entrecruzamento de forças políticas, sociais e culturais. O interessante para os setores dominantes é a coesão, mas eles não se furtam de utilizar a coerção.

Talvez um dos conceitos mais surrados e mal utilizados, atualmente, seja o conceito de hegemonia. A moda, agora, é dizer que o PT tem a hegemonia no País; que corremos o risco de uma PRIzação (como se contextos sócio-políticos, culturais e históricos de países distintos pudessem ser transferidos com esta facilidade). O problema, se adotarmos o conceito de Gramsci de hegemonia, é pensar que o PT tenha suplantado as forças hegemônicas que, de fato, dominam as relações sociais no Brasil através da coerção e da coesão.

Longe disto. O PT hoje aplica um receituário mezzo esquerda mezzo liberal que convive de forma, razoavelmente, harmônica com as verdadeiras forças detentoras da hegemonia no Brasil. O máximo que o PT fez durante os seus nove anos na Presidência foi tencionar um pouco a hegemonia a partir do momento em que apostou em aprofundar o alcance e a importância dos programas sociais.

O governo não consegue vencer a disputa ideológica com os conservadores (nem faz essa disputa). Nós vimos o que aconteceu com o ministro Gilberto Carvalho que, de maneira correta, afirmou que a disputa de ideias pela classe média deve ser feita contra os conservadores evangélicos. Foi chamado de “safado” por um senador da República em plenário, tendo que voltar atrás logo em seguida. A sociedade brasileira é conservadora, sofrendo, em alguns momentos, alguns sobressaltos rapidamente incorporados pela hegemonia. A hegemonia não é imutável.

Essas análises sobre a “hegemonia petista” parecem ser ranço com o PT. Tudo que petistas sugerem é rapidamente tachado como censura (ou parte de um projeto de controle hegemônico do País). A Fenaj sugere um Conselho Federal de Jornalismo, o Governo brasileiro endossa, donos de TVs e jornais gritam: “censura” e colegas ecoam. O PT sugere um marco regulatório tal qual existe em outros Países, outra vez gritam censura e, novamente, caminhamos para rejeitar uma medida importante para a comunicação brasileira por ser sugestão petista. Eu prefiro acreditar que nem o PT querendo (e, de fato, alguns dirigentes da legenda não colaboram, adotando discursos stalinistas), a democracia brasileira está sob ameaça. Alguns apostam no contrário. Me preocupo mais com isso aqui.

No entanto, finjamos concordar com a deturpação conceitual e que, ao se referir à hegemonia, jornalistas e políticos estejam se referindo ao fato da pretensão (legítima, diga-se de passagem) do PT controlar o Governo Federal e expandir o número de prefeituras municipais. Ainda assim, me parece equivocado dizer que o PT tem o monopólio das forças político-eleitorais no País.

Vejamos: O PSDB é o partido com a maior quantidade de estados: oito. O segundo é o PSB, com seis. Empatados em terceiro, PT e PMDB, com cinco. O PMDB detém o maior número de Prefeituras, tendo conquistado 1203 cidades em 2008. O PSDB aparece em segundo, com 786 administrações. O PT surge na terceira colocação com 557 municípios, seguido de perto pelo PP, com 550. Não é à toa que o PMDB grita agora (também de forma legítima) com o PT. É interessante tachar o aliado de hegemônico (aproveitando o apetite de petistas pelos cargos de confiança), próximo à eleição deste ano, já que teme perder a sua maior força: a quantidade de cidades que permite, entre outras coisas, ser uma potência no Congresso.

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JH e sua ideia fixa: Miami

O atual prefeito de Salvador, João Henrique (PP), deixou a todos impressionados com a desenvoltura mostrada no Carnaval (beijo na boca, tatuagem no braço, pulando todos os dias em blocos, camarotes e “pipoca”). Alguns elogiaram, mas, a imensa maioria desaprovou a saída de linha do prefeito. Desaprovação de todo o tipo: moralista, psiquiátrica, religiosa e política. Há quem tenha destacado o fato do gestor ter ido à pipoca. Pipoca com dois seguranças, meus caros, é pop corn experience.

Um setor ficou, especialmente, chocado com que viu: os evangélicos. Conversei com alguns depois do carnaval e estão todos abismados com a mudança. Os mais tranquilos têm dito que o prefeito nunca foi evangélico, que, na verdade, é um fariseu, que apenas buscou o voto desse setor quando foi conveniente e, agora, desbunda. Por isso, digo, essa história de misturar religião com política nunca dá muito certo.

No meio da folia, João Henrique deu uma esclarecedora entrevista para a TV Câmara. Disse ele com todas as letras que “as forças do atraso” querem evitar que Salvador seja uma Ipanema, uma Copacabana, uma Miami. Chamou os integrantes do movimento Desocupa de “desocupados” – uma troca de palavras bastante inteligente, ressalte-se, acho que meu primo de três anos não seria capaz de elaborá-la – e mostrou estar muito satisfeito com sua gestão, que deixa apenas uma cicatriz urbana, o Aeroclube. Hãrã.

João Henrique tem ideia fixa por Miami, não perde uma oportunidade para citá-la. Na campanha eleitoral de 2008, ele prometeu deixar a orla de Salvador como a orla de lá. Cheguei a dizer, na época, que me bastava que Salvador ficasse com uma orla igual a de Fortaleza, que é aqui do lado, que já estava de bom tamanho, mas ele gosta é de Miami. Não fez nem uma coisa, nem outra.

Ele diz também, na mesma entrevista, que a orla de Salvador estava favelizada e que o novo boom imobiliário da região deixará a orla de Soterópolis tão bonita como as das cidades citadas por ele. E eu achando que a beleza da orla do Rio de Janeiro estava nas mulheres, na tranquilidade em andar por lá de madrugada, pelo fato de ter barracas no calçadão, pelas praias serem limpas, os banheiros funcionando. Nada disso, para João, a beleza está no concreto.

Concreto este que tem descaracterizado a Cidade da Bahia. Avançar não significa destruir. Construir prédios não tem que vir com autorização para se fazer o que quer, como quer, quando quer e onde quer. Essa ideia de que tudo se pode em nossa capital é o que tem a impedido de seguir adiante. Salvador tem todo o potencial para entrar no século XXI mantendo aquilo que a define (e não vou descrever aqui o receituário da baianidade nagô, porque não é disso que se trata).

Esse salvo conduto para desvios explica o esforço de parte de assessores do prefeito de transformá-lo em vítima no processo de votação das suas contas. O prefeito teve duas contas rejeitadas pelo TCM, não acatando sugestões feitas pelo Tribunal no julgamento anterior, e a culpa agora são das forças do atraso que querem evitar que o excepcional gestor concorra em 2014? Se assim agem, bem o fazem. Por que João Henrique tem que ficar livre para tocar adiante o seu projeto político mesmo identificadas constantes irregularidades nas suas contas?

Veja abaixo a entrevista de João Henrique:

Prefeito João Henrique no Carnaval 2012 from TV Camara Salvador on Vimeo.

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